terça-feira, janeiro 31

Não deixa de ser curioso como a morte do meu avô, pessoa no seu término de vida, me trouxe a beira todas as pessoas da minha infância, lembranças do meu início de ser. Correcto será dizer que por estas alturas está presente uma certa nostalgia, uma saudade que corre à volta do quintal da nossa casa sem se atrever a pedir licença e a ter coragem de entrar na nossa cozinha, no entanto é de ficar ligeiramente estonteado e levantar a questão de como é possível eu não me lembrar de tantas pessoas? Como é que eu me possa ter esquecido dos momentos que passei com elas? Porque não continuam presentes aquelas memórias maravilhosas em que era criança e me escondia na lavandaria onde a minha mãe trabalhava e deixava toda a gente aflita à minha procura, ou como por exemplo uma das amigas da minha mãe sempre me chamou traquinas e sabichão e dizia-me ao ouvido quando estava na presença de uma ou outra rapariga "Vais ser muito bonitinho mas vais ser tão malandro João". O engraçado é que ainda o voltou a dizer hoje, como se nada tivesse mudado. Como é que por exemplo aquela pessoa que já tinha a sua idade na altura, aquela pessoa onde a minha mãe me comprava a roupa quando era um fedelho, continua hoje a ser velha e extremamente elegante do mesmo modo como eu antes a vira?
Questiono-me como será que estas pessoas e personagens se mantêm tão próximas da forma como eu as lembro enquanto criança e eu estou tão diferente do miúdo alegre que fora outrora. Como é que para elas foi fácil reconhecer o meu sorriso quando eu acho que da minha pureza, coisa que tantas elas afirmam que tinha, não resta a absolutamente nada?! Para muita pena minha afirmo eu, pois gostava de perceber em que coisa me tornei e em que merda ainda me vou tornar se continuar assim, como sei lá eu o quê, perdido entre o que fui, sou e o que talvez porra alguma serei.

A morte de alguém querido levanta sempre inúmeros sentimentos e questões. Neste momento paira-me uma certa dúvida de não saber se fui ver o meu avô a enterrar hoje ou se parte de mim já lá estava inerte algures no cemitério à espera dele.

segunda-feira, janeiro 16

A vista e principalmente a perspectiva são uma coisa séria e de ter em conta. Quando nos focamos em determinado ponto perdemos a vista sobre todo o universo que temos à volta. Um contra-senso da visão que me fez focar demasiado na minha dor camuflando o mal que estava a fazer ao alguém que adoro. Preso talvez numa perspectiva egoísta esqueci-me de todos os outros métodos de desenho, pensando talvez que ambas as folhas estavam em branco, até ao momento em que pestanejei e percebi que afinal que tu tinhas desenhado os momentos bons que me proporcionaste e me tens proporcionado, enquanto eu na minha folha tinha pintado as coisas horríveis que te fiz.

Se dizem que o amor é cego este já me devia ter vazado a vista para eu sentir que estavas aqui mesmo ao meu lado, à porta do meu mundo.

sábado, dezembro 31

Ao meu avô

Esta altura do ano tem por norma sensibilizar as pessoas. Eu já sabia que o meu avô não andava bem, e que passar o natal com ele já seria complicado. Não sabia com certeza que teria de ir ao hospital para lhe desejar felicidades, se é que elas fazem algum sentido quando alguém se encontra internado com poucas possibilidades de recuperação. Esforcei-me para lhe arranjar uma prenda no natal, esforcei-me agora que o visitei por lhe dizer algo de bom, entre uma piada que se solta e uma lágrima que cai disfarçadamente, e foi algo que mexeu comigo. Admiro a coragem da minha mãe - invejo-a para ser correcto - e desejo ter um décimo de força que ela tem porque assim que entrei naquela sala e vi o meu avô naquele estado duvidei se algum dia eu conseguiria suportar aquilo, se não passaria de um inútil que bloqueia nestas situações. Aguentei-me e consegui perceber o quanto importante é comunicar, já que não conseguimos entender nada do que o meu avô diz devido à sua doença. Não conseguimos perceber se ele diz que gosta de nós, se nos odeia, se algo lhe magoa, se enfim, quer manifestar as suas últimas vontades ou últimos desejos.

Eu não lhe consegui dizer nada, ele tentou dizer montes de coisas.
Ao meu avô, por tudo o que fica talvez por dizer deste mundo estranho.

quinta-feira, dezembro 1

Cuchi-cuchi

Desarmaste-me naquela última noite em que foste ter comigo. Mostraste aquele teu lado encantador, aquele teu lado que me transporta para um mundo de pensamentos, de imaginações passadas e futuras, que me faz quase perder a vontade de abrir a boca com receio de estragar o estado repleto de graça em que te encontras.
Tenho, de uma forma infantil, o desejo de correr em direcção a ti, de te dizer olá como se fosse sempre e exageradamente a primeira vez. Desejo isso e umas tantas outras coisas, mas não quero continuar assim, num intervalo de algo que já não sei caracterizar, nem definir talvez.

Talvez seja suspeito mas fico com a pergunta retida na minha cabeça, como poderia apontar algo de negativo em ti "cuando en verdad vos sos mi único... pensamiento"

quinta-feira, novembro 3

A índole do pensamento

O que é que sentes?
Sinto algo de bom que tende a transbordar sem parar.
Tens medo?
Nenhum.
Mas há quem o tenha não há?
Parece que sim
Sabes porquê?
Não me explicaram
Não desconfias do que seja?
Talvez porque não queira ir contra o mundo, não faço ideia
Não achas que ela seja uma pessoa forte para dizeres tal coisa?
Acho que ela é capaz de mais do que imagina
E acreditas?
Acredito que ela é uma pessoa extraordinária
Porque dizes isso?
Não sei explicar mas ao longo do tempo fui vendo expressões de alegria, sentimentos confusos, berros e birras amorosas, olhares perdidos, ambições avassaladoras, desejo, paixão, aborrecimentos, berros novamente e birras amorosas, um conjunto de coisas que constituem uma personalidade apaixonante e às vezes até inocente. Parecem-me bons sinais de alguém que queremos ter ao nosso lado
Não te perdes no meio disso tudo?
Pelo contrário, encontro-me. Revela em mim o mais profundo lado sensível.
É uma inspiração?
Mais do que isso. É uma pilha de maçãs.
Não dúvidas de ti próprio?
Por vezes, como qualquer homem
Já te julgas homem?
Estou quase lá. Tenho treinado a minha sensibilidade para o assunto e estou prestes a aceitar o facto, que tem mesmo de ser. Mas vamos lá ver, tu não te cansas de fazer perguntas?
E tu, não te cansas de dar respostas?

quarta-feira, setembro 7

Sobre o azul e o infinito

Tudo vai e tudo volta. Tenho provas disso, e as coisas boas voltam sempre. Naquele dia em que o ela de hoje desapareceu e deu lugar aquela ela engraçada, o passado confundiu-se com o presente. Não existem substituições, mas existem presenças. E presente foi o desejo que ficou latente entre nós, à alguns dias atrás.

Consigo por vezes ver desejo nos olhos das pessoas, ambição e determinação em certos gestos.
Passado tanto tempo a sentir a vista pesada de alguém, sabe bem vislumbrar o infinito azul novamente.
E azul é algo que inunda a minha vontade, e pelo que parece é a cor que banha o teu olhar a tender para o horizonte.

Já acordaste?
Pelos vistos ainda não te querem lá em cima.

Que graça. Se te tivessem tirado uma faca do coração deste tamanho tinhas desmaiado assim que te soprassem para a ferida. Acordei a pensar no que ela me disse, que só estava à espera que ela me dissesse que gostava de outro para me meter a andar. É irónico porque foi a forma como as coisas foram colocadas que me levou a afastar, porque não soa totalmente à verdade. Já bateu a escala do ridículo esta situação. Às vezes ainda penso que ela deseja que a tire dali, daquela prisão, daquela pressão. Não percebo como é que alguém diz que gosta de alguém e faz destas coisas. Que contradição.
Acordei a pensar que tenho coisas para fazer, que pretendo chegar longe e só vejo as pessoas a ficarem para trás. É mesmo longa esta viagem não é Óscar? Óscar? ÓÓÓÓssscar!

...

Estás curadooooooooooo!
Vais encontrar mais uns quantos nessa viagem.
Adeus sobrinho

Óscar. Óscar! Tira-me isto, preciso que me tires isto. Não consigo continuar com esta coisa espetada.

Achas que aguentas? Pensei que isso te desse mais força para continuares... Como que uma certa desculpa para a raiva e ódio.

Qual raiva e ódio? Não há ódio nenhum muito menos raiva.. Ela tem razão!
Ela ama seriamente outra pessoa e está feliz, e ainda bem que isso acontece. Não posso sentir falta de uma pessoa que nunca gostou de mim e que nunca me apoiou em nada, sempre me abandonou. Não posso exigir isso e não sinto rancor de coisa nenhuma, muito menos dela.
Vá, tira-me essa faca do peito.

Parece que estás a ser demasiado politicamente correcto ou estás naquela fase de negação?

Piada nunca te faltou é verdade. Nada disso. Não choro sobre a realidade . Foi tudo um erro sem dúvida alguma. Percebo agora que as coisas são assim e não há nada a fazer. Preencheram-lhe o vazio que ela sentia, criaram cumplicidade e não vivem um sem o outro agora. Continuar com isto espetado é não ter amor próprio.

Com essa quantidade de cicatrizes e feridas que tens nem sei como conseguiste chegar até aqui. Pensei que te ia perder. Estás em péssimo estado, como é que deixaste que te magoassem assim tanto?

Sou mau como à fome não vês? Tenho medo de montes de coisas por isso é que me atiro a elas com mais vontade. Não existe nada mais devastador que lutar por um sentimento puro e bom. Não haverá um mundo justo mas eu ainda o vou entupir de nobreza e coragem. Estás à espera do quê?

Estás pronto?

Claro que não!

Aaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

quinta-feira, setembro 1

João, para onde estás a olhar? Joãoooo

Estou a olhar para aquele casal de pessoas. Observo uma situação comovente, uma realidade não muito distante, leve e pesada como talvez um filme do Iñarritu

O que é?

São duas pessoas que parecem gostar muito um do outro mas que a falta de cumplicidade e partilha a modos que condenou um qualquer espaço de relação. Dá a sensação que até este ponto o que lhes faltou foi falar das suas diferenças, das suas preocupações, dos seus medos mais comprometedores, e agora que parece que o estão a fazer sopra o vento cruel da vida a separá-los. Há uma certa pressão atmosférica presente vinda não se percebe de onde

Sabes que a vida nunca teve modos e é um bocado intrometida não sabes? Não queres fazer disto algo dramático pois não?

Claro que não. Mas não consigo deixar de tentar entender. Fico com o pressentimento que algo está errado e que o futuro não terá o mesmo sabor um sem o outro, que existe algo que os sufoca pelo meio e que às tantas é por falta de coragem que não é combatido. Esperam que assim seja melhor sei lá. Quando não consegues explicar porque gostas de alguém, é porque essa pessoa é seriamente importante para ti a um nível incompreensível e extraordinariamente bonito

As pessoas acreditam naquilo que querem, e pior ainda é que por vezes obrigam-se a ser crentes
ou a situação ou alguém assim as obriga. Anda, temos de ir embora. Não vais conseguir explicar o que não se pode comprrender

O que lhes vai acontecer Óscar?

Não sei João, não sei. Pega na mala e vamos que a viagem é longa

terça-feira, agosto 30

A brincar com os animais lá de casa!

Fico triste quando perco pessoas que gosto muito, já que eu não gosto assim de tanta gente. Não terá somente a ver com quem se perde, mas com o que tu perdes de ti próprio. Ninguém tem o direito de nos magoar, e se é feito de uma forma desonesta pior ainda, mas não é o caso. Lamento o mundo não ser mais justo para que as coisas se tivessem proporcionado de outra forma e que tivéssemos tido hipótese de não ter morto a coisa deste género, à facada.
Facada foi precisamente isso que me espetaram no coração. Um facada com uma lâmina onde se podem ler as palavras escritas "foste um erro enorme" e "nunca estive apaixonada por ti".
Enquanto observo o sangue a escorrer-me pelo peito abaixo percebo que as paixões são normalmente feitas a um, não vêem aos pares. Comparo a situação áquilo que as crianças fazem por vezes aos animais. Dão-lhes umas pauladas porque é divertido até que o animal morre. Abismadas e irritadas pegam nele, abanam-o e gritam mexe-te, porque não te mexes? Mãe, o bolinhas deixou de se mexer.
Pois eu choro pelo animal, por aquilo que morre. Não vale a pena fazer-lhe respiração boca a boca que o bicho não se volta mexer mas tenho a certeza que o próximo espécie não será muito diferente deste, mas enquanto houver animais em casa não se compra mais nada, diz a mãe.
Porém paremos para pensar, o que é que a criança sabe do animal para poder ter outro igual? Quantas vezes brincou com ele? Quando foi a última vez que isso aconteceu?

O que é que sabes sobre mim se já não me vês à tanto tempo? Porque é que apesar de estares tão convicta nas tuas decisões, embora nada tenha corrido como pensaste, existe algo que te faz pensar em mim? Porque é que ainda há saudades? Saudades do quê?

Não fazes ideia e também não vale a pena pensar mais nisso. Não tens culpa e deixemo-nos já de excesso de dramatismos. Além de ti houve montes de pessoas que fizeram por ta meter na mão e disseram mata mata. Quando chegaste já cá estava à tua espera, em cima da mesa, e em vez de ter dois nomes só tinha um para facilitar a coisa, não te fosses tu enganar.

Recordo-me das coisas boas.
Lembro-me da primeira vez que estive contigo, no sofá de minha casa. Tenho um álbum de fotografias tuas na minha memória, de grande parte dos teus gestos, de quase todos os teus movimentos.
Considerei esse momento como um ponto de partida. Acreditei que teríamos criado um elo e que nos preparávamos então para descobri-lo e vivo-lo. Entre o que se acredita e o que a realidade aspira vão um conjunto disperso de cheiros e sabores, e talvez saberes.
O teu passado meteu-se à mistura e disse porque é que te estás a meter com ele e não ficas comigo? Eu é que estive lá nos teus momentos mais difíceis, achas justo deixares-me assim?
Parece que não achaste e continuaste assim por ai além, a seguires-te sempre pelas suas palavras, sem me explicares ou me dares um cartão de visita dessa tua situação.

Como disseste uma vez e muito bem, existem modelos. Esses modelos só deixam de existir quando são descontinuados e surgem outros melhores. Ora de para além trazeres contigo modelos muito antigos, peças de colecção, não há de todo qualquer comparação possível comigo.
Sou de série única, não existem muitas reproduções de mim espalhadas por esse mundo fora logo não me podes tirar as medidas.

Recordo-me das coisas boas, passados inacabados onde existiu o desejo mas onde a razão foi sempre mais forte. Sim, não podes nem queres largar com quem estás à tanto tempo e por isso e muito mais, descartas-me. Só aquela pessoa te faz feliz, só por ela é que choras e ficas triste quando a deixas, e se na realidade assim não o é, alguém o faz crer que seja.
Por isso recordo-me das coisas boas que foram para mim, porque para ti só há memória de terem sido grandes erros.

Recordo-me...

terça-feira, agosto 16

Não pode ser suor, não pode ser odor, mas é algo que me ofende a narina.
Existe uma certa textura que preenche o ar que me leva a pensar em coisas ditas deprimentes.
Eu não sou assim.
Não é isso com certeza que se quer transformar do meu pensamento.
Como é possível que essa linguagem tenha predominância ou prioridade nas palavras que fazem fila para sair da minha boca?
Como é que coisas que me ocorrem como és tu que fazes do meu ver e sentir algo equilibrado, em perfeita sintonia com o simples preto e o simples branco, pode-se tornar em algo negativo e ser visto como algo triste.
Como é que as formas que encontro para dizer que gosto de ti se relevam sempre inoportunas e deslocadas, quando na realidade apenas se pretende elevar essa palavras em toques e trocas de carícias.
Se a imaginação tivesse sempre a sua representação feita em palavras seria possivelmente uma péssima dramaturga. Pois isto não é um drama... São sinceras manifestações entre duas pessoas que se recusam a fazer disto uma bela pintura.

segunda-feira, agosto 15

Invenções do Homem

Existe quem defenda que o tempo é uma invenção do homem. Usamo-lo normalmente contra nós, para criar angústias, para despertar ansiedades, para dissimular e diminuir a alegria, contabilizando os minutos que faltam para ela terminar ou pior ainda, para dizer por quanto tempo ela durou.
O tempo, já eu sabia, é um inimigo.
Sempre o foi, contudo julguei que ao ignorá-lo era capaz de o deixar mais fraco, mais inerte, recortar a sua cara e colar a tua e elevá-lo até à eternidade.
Olha pois merda, cheguei tarde demais para fazer parte da tua vida e e cedo demais para me poderes dar uma hipótese de amar, e às vezes parece que ainda olhas para mim como se eu tivesse a culpa, fazendo por me descartar ao minuto.
Não tão cruel como contabilizar a alegria, é contar as horas de tristeza. Dar espaço à dor, essa coisa que realmente inventámos nós, é desonesto e injusto no que se trata a eu e tu.
Porém a vida continua ao sabor do relógio, com tudo o que nos espera e aguarda de bom, com minutos, horas, dias e talvez semanas, e pergunto-me, por quantos anos será que vou eu viver a pensar que nunca tive o direito de te ter?

quinta-feira, julho 28

As imaginações são inócuas, fruto da única e mais profunda inocência que existe dentro de nós.
É no confronto com a realidade que elas se mostram corrosivas, severas ou caprichosas.
Tal como o comum resultado de uma batalha, em que existem sempre vítimas, deixem que vos confesse que nesta em especial somos sempre nós, e que parte daquilo que de melhor nos preenche é dilareçado com uma violência suprema que transpõe qualquer universo conhecido.

quinta-feira, maio 12

Desaforo da espera, comboio que nunca mais chega

Magoaste-me de uma forma tão bruta e desonesta que permitiste que a dúvida se instalasse na minha alma. Mostras-te agora impecavelmente querida o que me leva a pensar se não será uma forma de pedires desculpa, de dizer "fica bem que eu quero seguir a minha vida sem remorsos".

Eu penso sempre que não, que não é isso.

É tão mais fácil ir e não pensar, não pensar que me estás a fazer a cama simplesmente para ficar deitado a ver-te dormir com outro, e porquê sempre com esse outro.

Já me questionei se te fizesse o mesmo se sentias a dor que ja eu senti por tantas vezes, se gostarias que pronunciasse baixo ao ouvido de outra as palavras que já te disse. Sabes que seria impossível dizer o mesmo pois o texto só é matéria porque tu existes, não teria impacto, porém já pensaste nisso, se te faria confusão? A mim faria confusão fazer exactamente o que me fizeste. Só de pensar na dor que isso é capaz de causar penso que não sobreviverias, desculpa o exagero da expressão, e eu não posso viver sem ti
mais ainda, não quero.

Estou cansado desta peça de teatro e como uma vez disseste "esperar" é uma palavra horrível.
Ter esperança será ainda pior portanto o que espero para acabar com a minha?
Porque é que me sinto tão mal quando penso que posso ser frio contigo quando o que já me fizeste sentir foi ainda pior e mais gélido?

Este drama só vai conhecer o seu extâse quando eu partir.
Só esse triste fim é que te vai dar a noção
e a mim
do que eu valho, e poderei valer o meu peso em ouro quando comparares o futuro que perdeste com o passado que não queres largar, com a estátua de bronze que colecionas à já alguns dias.

É melhor ir antes que isto se estrague por completo. Já lá vão tantas facadas que demos que daqui a pouco nem os pedaços servirão para encher o prato a uma refeição.
Comecei a fazer as malas mas curiosamente deixei a roupa toda de fora para ter espaço para meter-te lá dentro. Oiço o comboio ao de longe e tenho o bilhete na mão...

Poderei ter tempo mas não quero um fim assim e muito menos um começo deste género.

quinta-feira, maio 5

5 euros e não se fala mais nisso (poética do desentendimento)

Tenho imensa coisa na cabeça hoje em dia. Organizem uma feira de pensamentos e emoções e providenciem-me um espaço para poder expor os meus trapos mentais e de certeza que não se arrependerão. Terão de tudo a preços competitivos e com um bocado de lábia até são capazes de levar alguma coisa de borla, vejam lá se a fartura não é tanta.

Tenho imensa coisa na cabeça hoje em dia que é um desperdício eu não quer fazer nada com ela, portanto ao menos que alguém as use para seu proveito.
Estão demasiado comprimidas essas coisas, entre elas parece que perderam o sentido, que não se conseguem definir percebem?

Sinto-me em liquidação total, vendo tudo, dou tudo, não quero ficar com nada.
Tenho imensa coisa na cabeça hoje em dia e tenho muito mais ainda na alma, mas uma coisa de cada vez.
Não me deixem sem roupa assim de repente.

terça-feira, abril 26

Vi um filme recentemente, leve, daqueles do género de domingo à tarde mas um bocado melhor. Não tinha grande história porém houve uma certa passagem que me fez reflectir e ficar a pensar nisso durante uns tantos dias. Resumindo muito rapidamente o filme, diga-se que a história anda em torno de um triângulo, prisma ou paralelipipedo amoroso, onde um rapaz está prestes a casar-se com alguém que não o cativa, sobre os olhos atentos de quem realmente gosta e o faz respirar e escrever. Engraçado que a dada altura este foge por uns momentos com o "seu mais que tudo", que só por acaso é dama de honor da respectiva noiva, e nessa rapidinha conseguem proferir uns quantos argumentos que me fizeram questionar a mim próprio. Não percebi exactamente se ambos eram escritores, mas a verdade é que ambos confessam que o que os fazia escrever e o que os inspirava era o que existia entre eles, o que conseguiam dizer um sobre o outro. Passam-se mais umas cenas e chega o momento exacto do casamento, e na altura da troca dos "votos" o talentoso escritor não consegue dizer nada sobre a noiva, absolutamente nada.

Eu sei precisamente para quem escrevo e o porque escrevo e pergunto-me, será que conseguia escrever para mais alguém?

quarta-feira, abril 20

Os lamentos da certeza

Lá está, juntámos o raciocínio ao sentimento. Tudo o que disse da minha parte foi sincero, da tua foi da boca para fora. Argumentas que não dizes nada sem teres a certeza do que falas o que não te impede no entanto de o dizer. Vá, não cai mal e sempre se vai aguentado a situação. Usas uma verdade para contar uma mentira, significa que no final das contas aprendeste a fazer o somatório das circunstâncias. Metendo as contas de lado, já que os trocos pouco me dizem, concentremos-nos nas boas razões que existiram para fazer do mundo uma coisa doce, ou os poucos cêntimos que restam dele na economia do sentido.
Foi um amor do caraças!
Foi magnífico e nunca atingiu o máximo na sua plenitude.
Rimo-nos imenso, chorámos também, mas poderíamos ter feito ainda mais.
Tive de aceitar
aceitar não, tive de tomar como facto
que já existia alguém antes e agora tenho de de encaixar que já existe alguém para depois.
Um outro amor, muito superior a este
e tenho de me aguentar para não ir abaixo, porque quando estamos emaranhados neste fio de ouro esquecemos-nos que valemos mais que este pedaço de moeda ou peça de troca.
Não podemos julgar que só existe esta bolsa e não é prudente meter tudo em cima da prateleira e despachar logo a mercadoria sentimental
Em boa verdade nunca fui muito bom economista e sempre me fascinei por um ou outro mercado, então contigo dei quase sempre o melhor
Mas o melhor neste tipo de amor não tem uma cota muito avultada e já encontraste produto melhor no mercado internacional
Não se pode competir justamente nestas coisas à escala global
Ainda assim foi um amor do caraças, julguei crer
e enquanto uma pessoa não cresce ainda crê em muito
e tudo o que são crenças elevadas ao "expoente da loucura" dão em recalcamentos brutais
e a infindáveis lamentos da certeza que tudo teria de caminhar para um fim.
Digo isto ao som de uma canção mas resta-me saber se a sinfonia do teu instrumento toca ao mesmo ritmo
desejo profundamente que não seja o caso
No entanto não fico para assistir a essa tipo de concerto, mas oferece-me o bilhete que já é de bom tom.

terça-feira, abril 19

Interregnos do amor

Estou convicto que só um grande amor pode ser capaz de criar tamanha tristeza.
Na ausência do primeiro, quando este parte para lutar nas fronteiras do sonho e da realidade, predomina um ser ou um sentir que é rigorosamente composto pelo nada, pelo vazio.
Esse algo é mais que um sentimento, é uma razão
e muitas vezes um conjunto delas
o que torna estranhamente estranho ser sensível e ser racional ao mesmo tempo.

Estou convicto que só um grande amor pode ser capaz de criar essa enorme tristeza
como estou convicto que se alguém é responsável pela primeira será igualmente responsável pela segunda.
Os interregnos do amor têm destas coisas
infortúnios semelhantes às dinastias de outrora, sucumbidas na desigualdade das batalhas.

Caiu por fim de joelhos a valente bandeira.

quarta-feira, abril 13

Quem faz perguntas obtém respostas...

... e foi por isso que sempre tive algum receio de as colocar na mesa, ao género de um cartomante que defronte das cartas se prepara para as virar e com as suas palavras tirar a roupa ao destino. Posso dizer que a suspeita era grande mas não andava de mãos dadas com a curiosidade ou interesse. Não ganharia nada em fazer perguntas, pensava eu, porém confesso que não tinha ainda a noção do que estava a perder
e perder pode não ser o mais adequado para esta conversa até porque há termos bem mais carregados de sentido
Devassidão seria um deles
Libertagem ou depravação de costumes, sinónimos à letra, que afinal fazem ou fizeram parte de ti.
A petulância das tuas acções vestiu-se a rigor para a fotografia das tuas expressões, e ficaram bem, ao ponto de fazerem parte da eternidade
adoravelmente minha.

Não creio em visionários de alguma espécie ou em juízes de praça, no entanto não fui eu quem fez as perguntas, mas fui eu que levei com respostas que me mancharam a vista e deixaram o destino com aspecto de alguém que acabou de ser violado.